
Ponto Um. Ainda a semana passada eu estava à porta de casa, dentro do carro, ela passou por mim, bateu no vidro, soltou um sorriso e acenou-me. Ontem de manhã partiu. Chamava-se Maria, mas todos a tratávamos por menina Maria, apesar dos seus 82 anos e apesar de ela não gostar. Foi minha vizinha desde que me lembro de existir. Alta, muito alta. Sempre vestida de preto. O marido morreu no mesmo ano em que eu nasci. Quando era pequenina levava-me a passear numa carroça puxada por uma burra (a burra da menina Maria, dizia eu!) e lá íamos nós apanhar erva para os coelhinhos dela. De vez em quando deixava-me conduzir a burra e era o rejubilo total. Depois a burra morreu e a menina Maria acartava enormes fardos de erva à cabeça. Lembro-me que pareciam fardos de erva a movimentarem-se sozinhos, de tão grandes que eram. Vivia sozinha numa casa com uma eira e com flores enormes roxas e cor de rosa à porta. Tinha um pastor alemão (também velhinho) que me metia medo. Vai ser estranho deixar de vê-la a subir ou a descer a ladeira, lentamente. Vai ser estranho deixar de ter a menina Maria como minha vizinha.
Ponto Dois. O L. está doente. Gripe. Só me apercebi que o caso era grave quando no sábado à noite acordo, com ele muito enroladinho a mim, a tremer e a dizer-me: "está tanto frio!". O L. nunca tem frio. Troquei a camisola do pijama com ele - eu tinha uma polar e ele uma de algodão (por sorte porque normalmente nem pijama veste em pleno Inverno) - e este foi um episódio inédito, acreditem.
Ponto Três. Há pais que simplesmente não estimulam os filhos em nenhuma área. E isso faz-me imensa confusão. Crianças que chegam à escola primária sem conhecer nenhum número, nenhuma letra, sem qualquer interesse por livros, sem qualquer interesse por aprender. É grave do meu ponto de vista. Na minha opinião as crianças devem ser estimuladas desde muito cedo para a aprendizagem. Devem-se incluir nas brincadeiras jogos didácticos, deve-se apelar à sua imaginação, devem-se ler livros para elas, devem-se ensinar músicas didácticas. Isto para que não cheguem à escola, pela primeira vez, e seja tudo um mundo novo. Tenho um caso problemático em mãos. Primeira classe, já a meio do ano lectivo, dificuldades de aprendizagem, ainda não sabe os números todos (e já está a dar contas de subtrair e sinais de maior, menor e igual), imensa dificuldade na leitura (já para não dizer que se esquece frequentemente como se escrevem as letras) e, claro, deixou de conseguir acompanhar o ritmo dos colegas. Temos desafio dos grandes, portanto.