Este será, muito provavelmente, um daqueles post que nunca sairá dos rascunhos. Pelo sim, pelo não, há esta necessidade de escrever.
A semana passada recebi uma das maiores provas de amor. Estava o L. a pensar seriamente comprar o carro dos sonhos dele (e ficar a pagá-lo durante 5 anos!) quando eu encontro uma casa perfeita para nós: praticamente nova, pequenina (sim, embora seja estranho para muitos, um dos meus requisitos é que seja pequena e simples!), toda equipada, tudo de óptima qualidade, gira que só ela, exactamente no sítio que queríamos e, a melhor parte, a um preço fantástico (acreditem, vimos casas ao mesmo preço para lá de velhas, degradadas e completamente deprimentes).
A questão da casa, e de irmos viver juntos, já tinha sido muito discutida entre nós. Sentimo-nos extremamente cansados na nossa situação actual: malas para cá, malas para lá, por vezes precisamos (ou esquecemo-nos) de coisas que não levámos, não temos um espaço que possamos chamar de "O nosso espaço", não temos um sítio onde possamos estar sozinhos, não temos privacidade... Por isso combinámos que iríamos estar atentos aos anúncios de casas e assim que as coisas melhorassem profissionalmente, iríamos viver juntos. Quando encontrei a casa, achei-a perfeita para nós, senti que era realmente uma grande oportunidade mas pensei imediatamente que não era a altura ideal e que era apenas uma excelente oportunidade que não podíamos agarrar para já. Mostrei a casa ao L., disse-lhe a minha opinião e, quando esperava ouvir algo em concordância comigo, ele diz-me "Marca uma visita!".
Parou tudo! O homem mais fanático por carros que conheço, o homem que não dormia bem há duas semanas a sonhar com o carro que iria comprar em breve, de repente, está disposto a pôr de lado o seu maior sonho para ir viver comigo. Wooooohhh!!!
Os dias seguintes foram de muitas contas e indecisões. O investimento seria zero: a casa estava totalmente equipada e ainda por cima ao nosso gosto, os únicos encargos seriam: renda/água/luz/gás/alimentação... o normal em qualquer casa. Depois de muitas contas feitas o veredicto: o nosso dinheiro chega e ainda sobra, mas... e os mas? E se não me renovarem o contracto? E se, daqui a 4 meses, ele vem para a rua sem trabalho? E se me despedem ainda antes do contracto terminar? E se depois não temos dinheiro? E se acontece um imprevisto? E se? E se?
Noites mal dormidas. Arriscamos? Não arriscamos? Afinal o que temos a perder? Não vamos pedir nenhum empréstimo. Não nos vamos endividar. É apenas uma renda. Se perdermos o trabalho fazemos outras coisas: explicações, limpezas, agricultura... (eu sou perita nesta arte!). Decisão tomada: vamos arriscar.
Hora de comunicar às nossas pessoas. Mãe: "Vai. Vive a tua vida, se caíres levanta-te e vem cá para eu te abraçar. As portas desta casa estarão sempre abertas para vocês os dois.". Pais do L., na verdade não estava presente quando reagiram à notícia, mas, segundo sei, acham que estamos a ser uns irresponsáveis porque não temos trabalho fixo e não apoiam a nossa decisão.
Murro no estômago. Voltamos à estaca zero. Digo ao L. que não é necessário haver conflitos por causa deste assunto. É algo muito importante e especial para nós e, um dia, quero recordar o momento em que fomos viver juntos como um momento de muita alegria para nós e para as nossas famílias No fundo sei que apenas precisam de tempo para assimilarem a ideia e para nos deixarem voar.
Não vamos desistir dos nossos sonhos. Vamos apenas adiar para que seja um momento especial para todos e porque para nós é importante o apoio das nossas pessoas preferidas. Ficámos, isso sim, ainda com mais vontade de seguir em frente e passar para a próxima fase, porque afinal trata-se apenas disso: de fases naturais na vida de uma pessoa. Se é a altura ideal ou não? Na minha opinião, apenas a nós diz respeito. Claro que pode correr mal, claro que pode correr muito bem. Ninguém sabe. Mas temos que correr os nossos riscos e viver a nossa vida, não a vida que os outros escolheram para nós. E só assim evoluímos, aprendemos e adquirimos experiência.
E toda esta situação me fez lembrar o "Cântico Negro" do José Régio. Um dos meus poemas preferidos de sempre, talvez por eu ser demasiado independente desde pequena. Irresponsável? Nunca fui. Todas as minhas decisões foram bastante ponderadas e analisados todos os pós e contras. Mas, tal como diz o José Régio: Não sei por onde vou, Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí!"
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio
[Este texto foi escrito esta semana durante uma noite de insónias. Por ser de carácter tão privado não seria suposto vir aqui parar. Mas, pensando bem na razão porque tenho um blog, este blog foi criado para registar os momentos da minha vida. Aqueles que um dia vou querer reler e pensar: um dia já passei por isto e dei a volta por cima. Aqueles que um dia vou querer reler e relembrar o quanto fui (sou) feliz. Há coisas que quero deixar registadas, sejam boas ou más. Este texto, um dia, vai-me fazer ver que esta situação toda foi apenas, e somente, mais uma pequena pedra no nosso caminho.]

8 comentários:
De facto, nos dias que correm é difícil tomar certas decisões e arriscar. Eu também me vejo numa situação semelhante: muita vontade de dar o passo seguinte mas estou desempregada.
Mas quando começar a trabalhar, essa será provavelmente uma das primeiras coisas a fazer.
Hoje em dia quem é que tem um trabalho fixo? Quantas pessoas julgavam ter um trabalho fixo e para a vida e hoje já não tem? O que importa é realmente a nossa capacidade de nos levantarmos e darmos a volta.
Espero que em breve os pais do L. mudem de opinião. :) E possam, finalmente, viver o vosso sonho. :)
Estou a pensar no mesmo que tu. Eu e o P estamos juntos à 7 anos, e mesmo que não estivessemos, com a minha idade, sinto que tenho muita necessidade de ter um espaço meu. Ainda não contei ao meu pai, mas temo que a reacção dele vá ser igual ou um pouco pior do que a dos pais do L. E por muito que me custe, acho que quem gosta de nós, por muito que no nosso lugar fizesse diferente, tem o dever de nos apoiar, e tal como a tua mãe, guardar-nos um abraço para essa altura. Há riscos que acho que devemos correr e esse é um deles. Amanhã vou visitar o meu possível futuro cantinho e logo tomarei decisões... Vamos ver o que acontece.
hummm... E os planos do L. para comprar o carro? Em que pé é que estão?
esquecemos-se???
Boa! É arriscando que se sabe se as coisas darão certo ou não! Tu sabes bem que sim, és uma pessoa muito madura, ponderada e lutadora! :D
Vai em frente! Muita sorte, muita alegria e muita paz... seja o que for que escolhas :D
**
Lamento a frontalidade, mas lendo e conhecendo apenas a história através deste texto, na realidade o que me surge é que ou L. mudou de ideias ou os pais dele têm um peso enorme na sua vida psicológica...
É "arriscado" morar junto com a namorada e assumir todas as despesas inerentes dessa situação (a qual não implica endividamento!), porque podem ficar sem trabalho...certissímo! Mas pagar um carro durante 5 anos já não o é... :S
Apesar de estar a fazer um comentário analítico sobre a história, o importante é que entre vocês saibam aceitar estas divergências...É isso o Amor!
Por mais importante que seja a opinião dos pais , vocês próprios é que têm que tomar a Vossa decisão.
Sairmos do espaço dos pais não é fácil para nós, mas é muito mais dificil para eles.
Não concordo com a Vossa decisão mas só a Vós diz respeito...Nunca vai haver altura ideal. Boa Sorte*
Muito obrigada a todos pelas vossas palavras, apoio e frontalidade ♥
Peço desculpa também por ter pontapeado a Língua Portuguesa. Já lhe pedi desculpa e fiz os respectivos curativos.
**Beijinhos**
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