Depois de termos passado dois dias deliciosos no Porto e em Aveiro (o L. foi orador em mais uma conferência), no sábado ele teve um acidente de bicicleta. Telefonaram-me meia hora depois de ele ter saído de casa, peguei num fato de treino dele e fui a correr para o hospital. Consegui chegar antes da ambulância e aqueles minutos de espera pareceram-me horas. Fiquei ali sozinha a pensar em mil e uma hipóteses do que teria acontecido e no quão grave ele poderia estar. Finalmente lá chegou a ambulância. Quando me viu, deitado na maca, completamente imobilizado e cheio de sangue, sorriu-me e disse-me "Olá, tudo bem?", como se nos tivessemos encontrado no jardim da cidade, a meio de um passeio. Os bombeiros que o socorreram foram maravilhosos, super simpáticos e super prestáveis. Já não posso dizer o mesmo do atendimento no hospital. Primeiro fomos à triagem, depois passamos para a sala de micro-cirurgia. A médica, mais fria que um cubo de gelo, analisou-o rápidamente e ficou mais de 10 minutos a escrever no computador, enquanto o L. se contorcia de dores e tremia imenso. Consegui perceber ali que tinha a barriga da perna aberta e um ombro fora do sítio. Mandou-nos depois para o raio-x. Mais 15 minutos no corredor à espera. Depois do raio-x mais uma eternidade de tempo no corredor do hospital à espera nem sabia bem eu de quê. Só via o L. a tremer cada vez mais, a queixar-se das dores e a dizer que tinha sede. E moscas. Nunca na vida tinha visto mosca dentro das urgências de um hospital. Ele não se conseguia mexer e era eu que o ia sacudindo das moscas que teimavam em não o largar e que lhe pousavam nas feridas, na cara, no sangue e em todo o lado. Não tenho bem a noção do tempo mas, seguramente, o L. teve muito mais de uma hora no hospital sem receber tratamento. Sem um comprimido sequer para as dores, anestesia ou o que fosse. Com uma clavícula fracturada, soubemos depois do raio x, e com uma perna numa lastima (viam-se os tendões e tudo), acredito que passou pelo Inferno dentro daquele hospital.
Teve alta no mesmo dia e, mal chegámos a casa, já a ligadura e o penso na perna tinham caído. Estava cheio de feridas nas mãos e no hospital disseram-lhe para desinfectar em casa com Betadine. Em casa? Oi?
Ontem foi ao centro de saúde mudar os pensos. Disseram-lhe para comparecer esta manhã no mesmo centro de saúde para ser visto pela médica de família. Lá fomos nós esta manhã e SURPRESA!! A médica de família não estava. Foi um lapso terem-nos informado mal, disseram eles, tinhamos que voltarmos à tarde, ou então, comparecer amanhã de madrugada para conseguir consulta. Eu refilei, afinal ele não está constipado ou com uma doençazinha leve, mal se consegue mexer, vestir, calçar. Entrar para dentro de um carro é uma tortura e dizem-me estes senhores para andar a passeá-lo constantemente para o centro de saúde. Lá ficaram de falar com a médica e saber se ela o pode ver amanhã durante a troca dos pensos. Vamos ver.
Com isto tudo eu deito as mãos a cabeça e pergunto-me que raio de sistema de saúde é este? É inacreditável a falta de respeito e a falta de sensibilidade para com os doentes. Já para não falar na desorganização total que vai nos nossos hospitais e centros de saúde.